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Archive for 26 de dezembro de 2013

Apóstolo Pedro escreve sua primeira carta em meio a muitas provações sofridas pela Igreja do Senhor. A novel assembleia estava em seu momento de batismo com fogo, em pleno período dos anos sessentas, pouco mais de 30 anos após o Senhor ser oferecido como sacrifício pelos homens.

Nessa mesma época, a Assembleia de crentes em Cristo, os cristãos, ainda nomeada como “os irmãos”, “discípulos de Cristo”, “santos” (em Cristo) ou os do “Caminho”, não possuía templos – estrutura própria dos judeus (cf Jo 4.20-24). Suas estruturas em nada se assemelhavam às demais religiões ou a quaisquer outros sistemas humanos.

Seu mecanismo de funcionamento não estava inserido aos padrões sistematizados pelos homens e se movia pela ação externa ao mundo: o Espírito Santo, como já havia predito o Senhor:

“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar tudo quanto vos tenho dito”, Jo 14.26.

Portanto, a diferença estava justamente na ausência do sistema humano, do visível, palpável, corpóreo e humano, refletida pela revelação divina em Jesus, pois o Consolador é Espírito, mas justamente “outro da mesma espécie”, em confrontação com heteros (outro de espécie diferente), e havia presente desde o Cenáculo de Atos 2.

Neste retrato, o agora presbítero Pedro, escreve ao Corpo de Cristo disperso pelos domínios do Império Romano:

“Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo”, 1Pd 1.7.

Eleitos

Pedro, membro do (único) Colegiado Apostólico é específico e direciona sua carta aos eleitos. Ele quer dizer os ‘selecionados’, do hebraico bahar, a significar escolha deliberada de alguma coisa ou alguém com contínua referência ou satisfação. Já no Novo Testamento é ekleglomai (grego) e indica escolha ou seleção. Os dois vocábulos buscam a definição de ‘eleitos’ ou ‘preferidos’, resultantes de um ato seletivo a partir de pessoas, conforme Deuteronômio 30.19, enquanto Efésios 1.4 trata de escolha divina (Dicionário Bíblico Wycliffe, Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Rio de Janeiro, Brasil, 1ª edição 2006).

Essa indicação de propriedade peculiar aponta para ekklesia, a assembleia de eleitos (tirados de um lado para outro), como especifica Exodo 19.5-6 e 1Pedro 2.5 (reino sacerdotal e nação santa), que Pedro chama de eleitos ou convocados (1Pd 1.2-5). Note a ligação com o prefixo de eleitos ek, fórum (do povo), mais o verbo kaleo, convocar, chamar.

Corpo único e sem divisões

Nessa assembleia de homens sob transformação de natureza, conforme o próprio apóstolo ensina (cf 2Pd 1.4), não pode haver dissensões (divisões), como o apóstolo Paulo descreve em 1Coríntios 11.18. Ele completa a exortação no versículo seguinte, ao falar de partidários, como políticos que expõem a Igreja às suas proposituras heréticas (v19).

Neste versículo, o apóstolo Paulo usa haireseis, heresias no grego, a indicar o mesmo vocábulo para partidos, em oposição à pardoseis, indicação para tradições fundamentais e cristãs, orais ou escritas. Tradições aqui é traduzida por preceitos no versículo 2, justamente os que o apóstolo já havia ensinado.

Bem, diante da assembleia estão os convertidos (convocados e aprovados), mas também os reprovados (chamados, mas não escolhidos, cf Mt 22.14) e com uma sublimidade nisto, como o apóstolo dos Gentios explica:

“E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós”, 1Co 11.19.

Oposição ao Corpo

A oposição ao Corpo, mostrada em Êxodo como populacho – os agregados aos judeus que também quiseram sair do Egito, mas não eram israelitas –, mostra-se tão virulenta que e a Bíblia a nomina de obra de feitiçaria, conforme 1Samuel 13.23:

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR…”.

Esse sentimento humano, resguardando épocas, é semelhante ao de chefes de clãs de aldeias medievais, que resistiam ao acesso da pregação do Evangelho de Cristo, com medo de perder seus deuses-guardiões, ídolos protetores, como Ceres, a deusa da fertilidade agrícola, daí cereais.

Em outros registros da história cristã, temos os denominados cristãos novos que, obrigados pelo catolicismo romano, se convertiam à Igreja de Roma, por conveniência e para se livrarem de penalizações.

No primeiro caso, a Igreja Católica Romana buscou estratégia de dissimulação: Transformou os deuses-ídolos e protetores em santos-protetores. Portanto, em vez de conversão, adaptação, conciliação, em conformação com o sistema (cf Rm 12.1-2) e sem a renúncia aos deuses-ídolos (cf Rt 1.16).

Desprestígio

Enquanto alguns romanos acreditavam ser os cristãos uma simples seita judaica, tudo caminhava bem. Mas, quando a separação se fazia aparecer, a perseguição tornou-se implacável.

Os judeus faziam parte de uma religião oficializada pelo Estado romano e para isto ocorrer era necessário submissão às leis do império e à adoração a César.

Ocorre que os cristãos não se submetiam a tal custo, conforme Atos 17.6-8 e tampouco os judeus gostavam da ideia de serem ‘taxados de apadrinhadores’ de crentes.

Ainda existia uma terceira linha de perseguição, formada de familiares não convertidos que também alimentavam o fogo da provação e engrossavam a fila. 

Essa luta se agravava em função de, no Império Romano, o pai e chefe de família deter autoridade e poderes de decisão. Então, quando um membro se convertia ao cristianismo era expulso de casa e, a partir daí, não tinha onde se refugiar senão entre os membros da assembleia, pois todos viviam em circunstâncias semelhantes.

Esse era o retrato da sociedade em que a Igreja e Pedro estavam inseridos, quando o apóstolo escreve essa carta, nos anos sessentas dC.

Outra e nova natureza

Por fim, o apóstolo e agora também presbítero, quadro de anciãos e de pastor de pastores e, neste caso, bispos, guardiões da doutrina, após os apóstolos (cf Atos 2.42), tenta mostrar que o sofrimento será afastado se enxergarmos a situação sob o prisma do Espírito, que nos remete para a sua natureza.

Ele classifica os membros do Corpo de Cristo, a Igreja, como os que não pertencem à ocasião, ao lugar ou ao domicílio humano, mas como peregrinos e forasteiros, isto é, de fora ou estrangeiro:

 

“Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem”, 1Pd 2.11-12.

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