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Archive for 24 de maio de 2009

Apócrifo, em off ou em oculto?  

Como as pessoas usam características de ideologias para tentar remar contra a maré, numa luta completamente infrutífera! Nessa ‘guerra’ sem objetivos práticos está a lei do vereador do PCdoB carioca, Roberto Monteiro, sancionada pelo prefeito Eduardo Paes, no dia 20 de maio, que obriga à tradução de palavras estrangeiras. “Qualquer tipo de publicidade veiculada no Rio e nos letreiros de estabelecimentos comerciais… como delivery (entrega em domicílio), sale (liquidação) e off (desconto)”, vão ter de ser acompanhados do equivalente em português (Histórias Cariocas, Rogério Durst, Veja Rio, 27/5/09, pág. 12). 

É certo que de costumes – aquilo que faz parte da cultura de um povo – estamos bem aquém, mas daí a chegar ao ponto de fazer que as coisas funcionem à base de truculência da lei, do chicote, é exagero. Nisto tudo devemos saber qual o interesse por trás dessas ideias inóxias. 

De um lado estamos soltos por falta dessa base cultural. Somos o resultado de um amontoado daqui e acolá e somente daqui a décadas, teremos identidade própria, justamente depois da depuração de nossos infortúnios, do ranço que ainda nos prende ao passado.

Por outro, sempre corremos atrás do prejuízo e não usamos a consultoria gratuita ofertada por outros povos mais ‘evoluídos’ e que, portanto, já passaram por onde passamos agora. Não conseguimos nos antecipar. Por quê? Por causa justamente do primeiro ponto. Então aparecem os oportunistas, enraizados em um país sem raízes, para dar o grande golpe, como assistimos na área política, e em quase todos os segmentos sociais, com raríssimas exceções. 

Traímos origens 

Agora, imagine a época do Império Romano. Mesmo dominando o mundo, os romanos não usaram sua imposição para combater a influência da cultura grega – império imediatamente anterior ao romano. Não estavam preocupados com isso. Ao contrário, souberam aproveitar o momento. Aos imperadores não importava se era pax romana, a eirene grega ou a shalom hebraica. Bastava a imposição da paz do ponto de vista dos legionários. 

Os gregos atravessaram o tempo e até hoje permanecem a influenciar o mundo com sua cultura. No tempo dos romanos, o grego estava para o mundo de então como o inglês ao de hoje. 

Dinâmica da língua

Engraçado é ver pessoas preocupadas com efeitos que propriamente causas. Por que não lutar para o crescimento da educação e cultura do povo, em vez de tentar tolhir? Como se sabe essas mesmas ideologias têm como prática o abandono do investimento na Educação, para valorizar a formação de técnicos, com laços estreitos com objetivos comuns. 

Apócrifo, em off ou em oculto? 

Ao adotarmos esse mesmo conceito teríamos de deixar de escrever a palavra derivada do grego entusiasmado e grafar o seu significado em português: cheio de Deus.  Nas gravações de tevê não falaríamos mais falar em off, mas em oculto. 

Quem sabe ao fazer menção de Afrodite ou Vênus (versão romana), diríamos Iemanjá (mãe-d’água ou rainha do mar, deusa venerada por crenças espíritas do  Brasil), ou espuma (do mar), abril no grego. 

Talvez (e não maybe), em vez de off, usássemos apócrifo (oculto, escondido)… Mas ocorre que este vocábulo pode indicar ainda não genuíno. Apócrifo também deriva do grego apokriphos, palavra muito comum na Teologia (teologia?, ih, mais uma, acho bom traduzirmos para ‘tratado, estudo de Deus’), para indicar os 15 livros considerados não genuínos, 7 dos quais foram inseridos na versão Vulgata da Bíblia católica romana – a partir do Concílio de Trento, de 1545 a 1563: Macabeus (2), Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, e acréscimos nos livros de Ester e parte de Daniel. 

Quem brinca com phosphoro 

Fale em off, pois a Polícia Contra do Brasil (seria melhor Brasil do Contra), chegou. É o edil – magistrado romano que se incumbia da inspeção e conservação dos edifícios públicos. 

Huuum!… é melhor usar vereador! 

“A padronização gráfica das palavras reflete uma imagem de unidade e de uniformidade em si mesmo artificial, visto que tal unidade nunca se realizou, não se realiza e jamais se realizará na fala corrente. (…). Unificação ortográfica nada tem a ver com uniformização da língua. As línguas são como são em virtude do uso que seus falantes fazem dela, e não de acordos de grupos ou de decretos de governo” (Escrevendo pela Nova Ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa / Instituto Antônio Houaiss / coordenação e assistência  de José Carlos Azeredo – São Paulo:  PubliFolha, 2008). 

E se não déssemos importância à dinâmica da língua, que jamais para de evoluir, e escrevêssemos fruita em vez de fruta, egreja, a igreja… Mas não, essa mesma dinâmica da língua dá brilho, brilho de luz, depois de Thomaz Edson, e não aquela do phosphoro, da pólvora… a língua portuguesa arcaica do século 13, ou então vamos deixar de agir com romanice – à moda romana – e ir para o romancice, o devaneio, a  fantasia

Rio, 24/maio/09

Este artigo pode ser reproduzido com citação da fonte:
Mesquita, Antônio (blog: fronteirafinal.wordpress.com)

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